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Das coisas simples da vida.

by em fevereiro 28, 2013

Neste final de ano estive no Mato Grosso pela segunda vez e confesso que algumas coisas me chamaram a atenção. Estive na capital e na segunda maior cidade do estado. Tanto em uma cidade, quanto na outra, fiquei intrigada com os nomes das ruas.
É, os nomes das ruas. Toponímia. E já-já você irá entender o motivo.
Vamos voltar ao título do texto: “das coisas simples da vida”.
Sempre que nos vemos tristes, ou atarefados demais, temos o costume de falar que sentimos falta “das coisas simples da vida”: tomar sorvete de bola, caminhar de mãos dadas, de um abraço, um sorriso sincero, de batata-frita com sundae, de jogar vídeo game, de brincar e ver a vida como uma criança, enfim, qualquer coisa que você pensou aí e que são clichês da vida. E não é porque são clichês que não são verdadeiros.

Voltemos aos nomes das ruas. Todos, todos não, a maioria das pessoas, dizem: “vereador tem mais é que fazer coisa que preste, não ficar discutindo nome de rua!” Eu ouvi esta frase e fiquei pensando: “verdade, tem muita coisa importante para se fazer em todos os municípios, mas os nomes das ruas são igualmente importantes. É a memória coletiva e mais, é a memória oficial que eles, os nomes, carregam.”

Você deve estar pensando agora: “que mina louca, do que ela está falando? Tá falando que nome de rua é tão importante quanto construir uma escola, uma creche, uma posto de saúde, hospital, etc.?!!!”

Não é isso, mas é mais ou menos por aí, e vou explicar por que. Quem me conhece sabe o quanto eu acredito na importância de conhecer nossa história, principalmente nossa história recente, uma história que todos fingem não saber e não dão a devida importância. E é justamente por isso que está aí, forte no pensamento, nas atitudes, no inconsciente das pessoas – a ditadura civil-militar pela qual passou o Brasil de 1964 a 1984.

Pois é, muitos bradam pelos quatro cantos que a ditadura “acabou-deus-nos-livre-que-volte”, pois hoje podemos falar o que quisermos, não existe censura. Esse discurso pra mim, não cola. Pelo simples fato de ser completa e absurdamente superficial. E quer saber por quê? Não, hoje não existe censura, você pode sim falar o que quiser sobre qualquer coisa, inclusive sobre o governo, qualquer que seja. Mas tem um detalhe: ninguém vai te ouvir. Isso mesmo, ninguém te ouvirá. Principalmente se você estiver falando de política, mas se for do “grande irmão”, meu amigo, você terá a maior atenção do mundo! E não é apenas isso. Claro que é super importante não haver censura, pois se ela ainda existisse eu não poderia estar aqui escrevendo isso, mas não é o MAIS importante. A ditadura não tirou apenas o direito das pessoas de falaram, pensarem o que quisessem de qualquer coisa. Foi um governo ilegítimo que durou duas décadas! Sob a falácia de que estavam salvando o país do comunismo. O Brasil nunca, nunca, em momento algum, nem antes e nem depois, correu ou corre, o risco de virar um país comunista. As pessoas foram enganadas e são enganadas com esse discurso até hoje. Mesmo porque nunca houve um governo comunista de fato. Mas isso é discussão pra outra hora.

Marechal Castelo Branco
Um dos orquestrantes do Golpe Civil-MIlitar de 64, que depôs João Goulart da presidência do Brasil.

Voltando. Além de ser um governo ilegítimo, que tirou do poder um presidente eleito pelo povo – é sim, eleito pelo povo, pois na época votávamos em presidente e em vice-presidente que, no caso, era João Goulart, ufa! – matou, estuprou, torturou, deu choque, amputou, desapareceu com muitas pessoas. Seres humanos, como você, como eu, que simplesmente não admitiam viver sob o julgo de um governo tirano e ilegítimo. Pessoas com mãe, pai, tios, tias, filhos, esposas, esposos, gente que nunca mais voltou pra casa, gente que não pode ver o filho nascer, gente que não pode ir ao enterro dos pais, gente que teve que fugir, pra não morrer ou desaparecer, o que dá na mesma, como tantos outros.
Agora você está se perguntando: “e a Po**a da rua?!”

Ah, as coisas simples da vida. O nome das ruas é uma delas. E como disse lá em cima, eles carregam a memória coletiva, e a memória oficial. E que porcaria é essa? É um lugar de disputa importantíssimo, pois é através da memória coletiva e oficial que se carregam discursos, valores, a história dos vencedores. Ao menos os vencedores do discurso. Não é preciso vencer a batalha propriamente dita; se o seu discurso, se as suas ideias se mantiveram, você venceu a guerra.

O que me chamou atenção lá nas cidades do Mato Grosso foi justamente isso: ruas, avenidas importantes com nomes de presidentes ilegítimos e torturadores. Não são apenas ruas, são estradas, monumentos, estádios, centros de cultura, bairros, escolas que, para mim, são o caso mais grave. E é claro que não é apenas lá. É aqui, é em todo Brasil.

Como queremos que o pensamento do “rouba mais faz”, “estupra mais não mata”, “polícia tem que sair matando mesmo”, e todas essas coisas descabidas desapareçam, ou melhor, mudem para um pensamento mais humano, que se importe mais com o próximo do que com seu próprio umbigo, se todos os dias, nós falamos nomes de torturadores de forma corriqueira, como se pedíssemos um copo d’água?

Não estou falando de condescendência com quem comete um crime, quem quer e qualquer que seja. Todos, sem exceção devem pagar pelo crime que cometeram. E pagar pelo que cometeram é serem investigados, julgados e presos caso sejam condenados. E não mortos nos becos das periferias por decisão de um policial ou de quem quer que seja. Estou falando de conseguir enxergar para além do crime em si, de ver que a violência que vivemos hoje, é fruto do descaso,  da miséria social que vivemos. É  fruto dessa sociedade doentia que ter vale mais que ser, que as coisas são amadas e as pessoas usadas.

Eles, os torturadores, estão nas nossas bocas, nas nossas mentes, com tudo aquilo que os representa. Perpetuando seus valores corrompidos em todos nós em todas as cidades.
Como posso explicar para um aluno que a escola dele tem nome de um torturador? Como ele vai conseguir entender que a escola, a cidade, o país(!), homenageiam assassinos? Como assim?!!!

Outro dia, o jornalista Leonardo Sakamoto publicou um artigo dizendo que estava proibido dar nome de rua com nomes de pessoas ou empresas ligadas a trabalho escravo. Adorei a notícia, pois como podemos homenagear, dar um lugar na memória coletiva, na história, uma pessoa que pratica ato tão desumano como a escravidão, nos dias de hoje (ou de ontem)? Alguém que enriquece com miséria alheia?
Mas aí eu pergunto: e torturador pode?

E pergunto a você, aí do outro lado, podemos homenagear torturadores, sejam eles presidentes, prefeitos, governadores, delegados, policiais, militares, etc., que assassinaram e levaram tantas pessoas ao sofrimento, fruto de uma ganância de poder, poder esse lhes dado ilegitimamente?

Eu não sei você, mas prezo e muito as pequenas coisas da vida…

Obs.: Esse “grande irmão” aqui ,aqui e aqui , tem muito para nos ensinar…

“Homenagear um assassino é voltar a assassinar cada uma de suas vítimas.”
General Pinochet, ditador no Chile de                      1974 a 1990.                               Colaborou com a ditadura no Brasil, através da operação Condor.


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2 Comentários
  1. Aparentemente, só para o povão não importa os nomes das ruas. Os poderosos fazem MUITA questão de por os nomes dos seus entes queridos – que Deus os tenha – em ruas e entidades públicas. Haja visto o esforço em garantir que a Águas Espraiadas passasse a se chamar Av. Jornalista Roberto Marinho. Esta, que, por sinal, ganhou um belo adorno chamado Ponte Estaiada – o jornal SP TV precisava de um belo cenário.
    Mas o povão é mesmo muito engraçado. Tamanha é a dificuldade para fazer pegar o novo nome da avenida que o onisciente Google ainda mantém os dois nomes no seu Maps.

    Parabéns pelo texto, Van!

    • Vanessa permalink

      Gratidão, Marco. Fico feliz que tenha gostado do texto. As Águas Espraiadas não pegou mesmo, mas as idéias do Médici no MT…ai, ai.

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