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A humanidade desumana – um pensamento sobre o nascer

by em novembro 28, 2012

Como diria Antônio Abujamra em seu Provocações, não fale de humanidade, a humanidade é torpe, promove guerras, dor e destruição.  Mas a discussão aqui é mais séria que o “simples” esvaziamento do sentido que atribuímos a palavra humanidade.

Como queremos que essa palavra não se esvazie do significado que a ela atribuímos, se dar a vida, essa coisa sublime que nós mulheres nascemos sabendo, é tão desumanizado?
Não, esse não é um texto de uma feminista ativista, que vai falar de parto humanizado porque está “em voga”. Não se preocupe. O que quero aqui, é que você leitor, pare e pense um pouco. Mesmo porque exercitar o verbo pensar é um ato livre, embora nos dias de hoje, cheio de cerceamentos.

Falo disso hoje, porque além de ser mulher e querer ser mãe um dia, tive a oportunidade de acompanhar de perto, tanto quanto possível, um parto humanizado, em casa, e pelo contato com o vídeo abaixo, produzido pelo pessoal do blog Cientista que virou mãe, para mostrar a violência sofrida pelas mulheres nas suas gestações e no momento do parto. Violência essa que é silenciosa e que precisar ser ouvida.

Vamos pensar em medicina. Todos nós sabemos o caos que anda o atendimento médico no país. Seja ele público ou privado, o médico nos atende em 8 minutos, muitos nem olham na nossa cara, tratando – nos como carros numa oficina à espera de conserto. Além da dificuldade de atendimento, temos que lidar com a falta de humanidade nesse atendimento. Tudo visando é claro, o lucro. É meus senhores – dinheiro, grana, bufunfa, caraminguás. Sim, os salários pagos a esses profissionais, ao menos na rede pública e nos planos de saúde são ínfimos diante de um trabalho tão importante, e que também precisou de muito investimento por parte daquele que a exerce. Mas a discussão não é essa, e sim o tratamento dado pelos médicos aos seus pacientes, que se tornaram nada mais que clientes. Ao contrário dessa premissa, a ideia deve ser de um sujeito ativo no seu processo de acompanhamento médico, seja cura, gravidez ou outro, que não dá margem para se pensar na comercialização da saúde. Além disso, vamos combinar: não procuramos médicos porque os achamos legais. Na maioria das vezes é um momento delicado em que não estamos bem e carecemos de cuidados.

Agora imagina uma gestante. Uma gestante de primeira viagem. Quantos questionamentos, quanta ansiedade, descobrimentos, mudanças!!!
Quando encontramos com uma mulher grávida e convivemos com ela, normalmente temos o foco na criança e deixamos de lado esse ser humano, protagonista dessa nova vida e nos descuidamos dela em função de novo ser. Claro que o bebê é muito importante,  mas não podemos nos esquecer da mulher que está ali, carregando aquele bebê com todo amor e carinho, e que também precisa de cuidados antes, durante e depois do parto.

Vivemos num mundo em que desnaturalizamos o que é de fato natural, e naturalizamos uma prática, um hábito, muitas vezes mecânico que a mente humana criou para facilitar a sua vida, além de juntar uns caraminguás a mais.

Pois bem. Parir é um ato natural, no sentido estrito da palavra. É um ato fisiológico como fazer xixi ou cocô. Faz parte da biologia do corpo feminino.
Você ou sua família com certeza já tiveram um cachorro ou um gato. Se era fêmea e vocês não castraram, com certeza elas engravidaram, e pariram em casa, sozinhas, sem necessidade da intervenção de ninguém. Nós mulheres fazemos a mesma coisa. Calma! Não estou comparando do tipo “é tudo igual”. Estou falando da parte biológica da coisa. E é isso, mesmo que você não goste.
É natural engravidar se você tem uma vida sexual ativa e não faz uso de nada contraceptivo. Assim como é Natural engravidar, é Natural parir! Só isso.
Eu sei que a medicina evoluiu e que está aí para ser usada a nosso favor, para prolongar a nossa vida, facilitá-la, etc e tal. Mas existem situações em que o uso das novas “tecnologias da medicina” só faz atrapalhar e por vezes prejudicar a nossa vida.
Parir não é doença. É um ato natural do organismo da mulher. O corpo sabe o que tem que ser feito, e, portanto qualquer intervenção desnecessária só faz prejudicar o que a natureza já sabe fazer e fazer bem.
Por exemplo, os poucos hospitais que fazem parto normal, aplicam ocitocina artificial na mulher na hora do parto. Isso é um erro. A ocitocina fabricada pelo corpo da mulher no momento do parto ajuda e muito no trabalho da parturiente, mas a artificial prejudica, pois ela faz as dores da contração serem mais intensas, além de deixar a mulher mais sensível a essa dor. Isso faz com que aquela mulher que estava em trabalho de parto do jeito que dever ser, peça para tomar anestesia para “acalmar” a dor. Nesse momento, o corpo relaxa, e o bebê – que também é parte importante no processo de nascimento, ele não é passivo como muitos pensam – ele ajuda no processo de expulsão, relaxa e para de trabalhar também. Além disso, a droga da anestesia fica no corpo do bebê por 6 longos meses!!! Você mal nasceu e já ficou doidão com consentimento e aprovação do médico!!!!

E é comum ouvirmos: “Não, mas isso é normal, isso é natural, eles sabem o que estão fazendo.” Não eles não sabem. A maioria dos médicos não aprendeu como se faz um parto normal, um parto natural. Eles simplesmente não foram ensinados. Eles não aprenderam na faculdade de medicina a fazer um parto que não seja o cesariano.
E porque isso? Um parto natural leva tempo. Cada mulher, independentemente de ser o primeiro, o terceiro, ou seja lá qual for, tem seu processo, tem seu tempo de trabalho de parto.

Vou usar aquele exemplo lá de cima de novo: cada um leva um tempo para cagar. Alguns sentem vontade, logo vão ao banheiro, em qualquer lugar e pronto. Problema resolvido. Outros não. Só fazem em casa, em silêncio, ou lendo, demoram meia hora no banheiro. Mas fazem. Todos fazem. É preciso fazer para não correr o risco de morrer entupido. Pode demorar, mas todos acabam fazendo.
Com o trabalho de parto é a mesma coisa: cada mulher tem seu tempo. E ele pode variar de 30 minutos a 24 horas ou mais.

Oh babaca de plantão: não estou comparando um nascimento com fazer cocô. Estou falando do processo fisiológico. Ambos são processos fisiológicos e o corpo sabe o que deve ser feito em cada situação. É disso que eu estou falando.

Agora imagina o médico tendo que ficar de alerta, esperando a hora de cada mulher parir. E a viagem que marcou com os amigos ou com a mulher/marido? E o feridão, natal, aniversário, happy hour, a hora do jantar? E os atendimentos marcados no consultório? Terão que ser suspensos por tempo indeterminado! E o dindin que eu vou deixar de ganhar?!

É meus queridos, parece coisa de “comunista gagá”, mas não é. Nossas relações hoje em dia são pautadas pelo dinheiro, e o pior de tudo isso é que não conseguimos enxergar pois naturalizamos essas relações.
É muito triste ver uma mulher nesse momento mais do que especial ser tratada com desrespeito. Não sei você que é homem, como vai sentir,  ver,  processar os depoimentos do vídeo, mas você mulher, mesmo aquela que não deseja ter filhos, vai entender a indignidade com que essas mulheres foram tratadas no seu momento mas forte e mais frágil ao mesmo tempo.

É preciso mudar essa cultura de que gravidez é doença. E mais ainda, mudar esse pensamento de que cesárea é uma coisa normal e que não traz riscos. Cara, é uma cirurgia de alto risco! Não é porque o cara faz isso todo dia, a mais de sei lá quantos anos que o risco não existe. A quantidade de mulheres e bebês que morrem decorrentes de um parto prematuro por cesárea é muito grande. O risco de uma mulher morrer parindo de forma natural é de 3%.  Mas é claro que essas informações não são divulgadas. E quero que você se arrisque a responder o porquê disso.

Parir é uma entrega. É estar presente por inteiro durante todo processo de gestação. É sentir seu corpo mudar, os ossos do seu quadril se abrirem, preparando para o momento de entregar ao mundo essa nova vida. Trabalho de Parto. É o que o próprio nome diz. Um trabalho. Dos mais sublimes. É deixar morrer uma parte de você para a vida surgir.

Bom, é isso. Quer dizer, tem muito mais a ser dito, mas vou ficar por aqui. Espero ao menos que a leitura desse texto e esse vídeo te façam pensar sobre a forma como trazemos novos seres humanos para esse mundo e que você busque informações e encontre a melhor maneira de encarar e de viver esse momento.

Não podemos exigir amor, paz, harmonia, respeito se nascemos e trazemos ao mundo novas vidas em meio à violência, à indignidade e ao desrespeito ao nascer.
E antes que algum babaca diga: “quer dizer então que o problema do caos no mundo vai se resolver com parto natural”. Não, não foi isso que eu disse. Estou falando da hipocrisia diária de se querer um mundo melhor, mas não conseguimos enxergar a violência diária a que nos submetemos e submetemos os outros, de forma sutil, e, portanto muito mais cruel porque não a enxergamos. Quando alguém grita essa violência na nossa cara não somos capazes de vê-la pois a naturalizamos.

Mais amor e mais consciência, por favor.

“Nada é impossível de mudar.

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.

E examinai, sobretudo, o que parece habitual.

Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,

pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,

de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.”

Bertold Brecht

Obs.: Ao longo do vídeo, muitas mulheres falam sobrem um procedimento invasivo e desnecessário que sofrem em seus partos, a episiotomia que é o corte feito no períneo –  famoso “pique”.

Para mais informações sobre o que foi dito aqui:

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/

http://www.maternidadeativa.com.br/

http://casamoara.com.br/

http://mulheresempoderadas.wordpress.com/2012/09/29/cesarea-necessaria-ou-desnecessaria/

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3 Comentários
  1. Gostei muito do texto! Tá de parabéns! Vamos mudar as coisas e ve-las mudarem dessa vida vazia que a humanidade está vivendo! Obrigado pela leitura!

  2. Olá Vanessa, gostei muito do texto, já conhecia o documentário e para o 8 de março deste ano, compartilhei minha triste experiência de parto na Santa Casa de Mauá em 2005. O parto é algo natural sim, mas nesta sociedade ele é tratado como mercadoria, como tudo por aqui. Fiquei 15 horas em trabalho de parto. Se tiver um tempinho leia meu texto. Você levanta aqui uma reflexão muito importante, como pensar mais na mulher do que na criança, e outras questões, eu farei outros textos també. Meu blog: http://cronicadeumaprofessora.blogspot.com.br/, um abraço.

  3. Vanessa permalink

    Oi Janaína! Fico feliz que tenha gostado do texto. Acabei de ler seu relato de parto, e fico triste com a sua experiência. Como você apontou aqui e lá, a gestação, o parto e o bebê foram transformados em mercadoria para ser vendida e consumida. E tempos como esse, ajudam e muito para que a mulher seja deixada de lado, e a ocorrência de depressão pós parto se torne uma consequência quase que imediata. Talvez esse seja um dos motivos para termos gerações de filhos únicos. A humilhação e a violência com a mulher é tão grande, que pensar em ter outro filho deve ser torturante. Pura expeculação minha, mas acredito que isso contribua para essa decisão. Ambos necessitam de atenção, cuidado e carinho intensivos nesse momento. Eu já decidi que mandarei todo mundo as favas se me tratarem simplismente como uma vaca leiteira que cumpre seu papel social de satisfazer a vontade dos outros de terem um bebê para continuação da “família/espécie”.
    Aho!

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