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Da diferença na educação

by em maio 17, 2012

Caros leitores, aqui vai mais um texto sobre educação, que não tem praticamente nada de história. Eu escrevi um sobre a tecnologia na educação que se apoiava na obra do historiador da leitura Roger Chartier. Mas enquanto ele aguardava alguns acertos, saiu este aqui que, pessoalmente, gostei mais. Espero que também gostem!

Os profissionais da educação tem sido bombardeados com teorias que, em uníssono, dizem “vocês tem de se adequar à realidade de seus alunos”. A reação a elas diverge desde a plena aceitação até a completa recusa. Há quem defenda que os professores devem adequar seu linguajar ao dos alunos e há aqueles que defendem que o professor deve deixar clara sua erudição para que seja respeitado. Há aqueles que defendem que o professor deve deixar de lado sua “zona de conforto” e aprender a usar a internet como ferramenta de aprendizado e há aqueles que acreditam que não há nada melhor do que a leitura de um bom livro. Quem estará certo? Nem um dos extremos. O meio-termo? Tampouco!

Sobre o debate a respeito da tecnologia, sou a prova viva de que ela sozinha não é capaz de melhorar a situação dos professores. Sou o que os teóricos da educação gostam de chamar de “nativo digital”. Domino todos os gadgets tecnológicos, todas as novas linguagens da internet. Entretanto, não vejo como aplicá-las em sala de aula possa ser a solução definitiva para que a escola deixe de ser uma instituição defasada. Concordo com o argumento promulgado por grande parte dos teóricos da educação  – descobri isso através do Google Acadêmico – de que a transposição da tecnologia para a sala de aula é capaz de ajudar a prender a atenção dos alunos. Mas, por outro lado, concordo que não há nada melhor que um bom livro (digital ou tradicional) e uma boa aula expositiva para compreender Nietzsche.

Aliás, na defesa do uso da tecnologia há dois argumentos muito usados; o de que os alunos sabem usar a internet melhor que os professores e o de que transpor conhecimento a eles é inútil, hoje em dia, uma vez que eles tem-no todo a apenas alguns cliques de distância. Se concordarmos com ambos, uma aula que lance mão da internet não passará de um passatempo, já que ela não serve para que aprendam a usar a internet nem para a que aprendam um determinado conteúdo. Então apenas os livros devem ser usados nas aulas? Não. Esse ainda não é o ponto.

O meu grande desafio depois que terminei o Ensino Médio foi me adaptar à profundidade da escrita e leitura próprias dos livros, pois era isso que me faltava. Hoje, transito entre a complexidade de “Raízes do Brasil” e da praticidade da Wikipédia. Da mesma forma, foi na universidade que descobri o prazer do contato com PHDs e, ao mesmo tempo, percebi o quão produtivo é conversar com meu avô. Nem a concentração da leitura de livros, nem a velocidade da consulta à internet, nem a erudição da universidade, nem a simplicidade do interior, nem seus meios-termos, nem um deles me pôde ser útil o bastante para que eu me ativesse a um só.

Por hora, vamos aceitar que eu, como indivíduo, sou um projeto que deu certo. Se tal diversidade pode ser conveniente a mim, deve ser positivo permitir que as crianças e adolescentes também a experienciem. Por que, então querer que todos os professores assumam uma determinada postura dita adequada à educação. Ainda que essa se mostre eficiente no mantenimento da harmonia dentro da escola, qual a vantagem que esses jovens tirarão da mesma? Muito pouco. Ainda que percebam isso depois que saírem da escola, eles terão de fazer um grande esforço para se adaptar àquilo que for diferente ao que se acostumaram durante a vida escolar.

A ideia de que o professor deve se adaptar ao aluno, dominante na educação atual, à primeira vista se mostra muito libertadora em relação aos antigos professores sisudos que batiam nos alunos que não aprendiam. Mas, se exagerada, restringe as perspectivas do aluno quanto aqueles que são diferentes de si. E não é isso que queremos, uma vez que um dos maiores desafios da educação – e do país, como um todo – é torná-la voltada para a diversidade.

Desse modo, é profundamente positivo que cada educador ofereça a seus alunos aquilo que tem de melhor, mesmo que isso possa parecer velho e ultrapassado. Ou erudito de mais, ou irreverente de mais, ou moderninho de mais. Da mesma forma que respeitamos as diferenças dos educandos, acreditando que eles se beneficiem disso, devemos respeitar as diferenças dos educadores pois eles também se beneficiarão. Os problemas da educação não serão resolvidos com equipamentos hi-tech, ou com professores que cantem rap. Isso já está se mostrando insuficiente. A aceitação das diferenças pode ser um grande começo para construir uma escola que supere os problemas que a afligem.

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One Comment
  1. Nossa, estava pensando nisso semana passada! Tivemos um conselho de classe e a diretora insistia com veemência que os professores tinham de adotar todos a mesma postura – segundo ela, se um fosse “bonzinho” e o outro muito rígido, isso confundiria a cabeça das crianças. Achei isso mais que absurdo, pq se pensa tanto em “formar para o mundo” e cria-se justamente um ambiente oposto ao que está lá fora, onde eles encontrarão pessoas de todos os tipos – sem contar os humores flutuantes!
    E quanto a eles “saberem usar melhor a internet que os professores”, puro mito! Eles conhecem a internet como conhecem a programação da TV: só o que é popular e superficial. A maioria não sabe a diferença entre “copiar imagem” e “salvar imagem”… Não sabem lidar com diretórios que não sejam o “Meus Documentos” e uns 80% deles (classes entre 6º e 9º ano) vieram me perguntar se o MSN era e-mail!
    Sinceramente, eu esperava muito mais deles! Esse papo de “geração que tem familiaridade com a informática” é só mais uma balela dos velhos deslumbrados! XD
    Bem que eu vinha reparando que a internet está mais calma e segura… Hoje eles dizem “hackear” quando descobrem a senha do coleguinha…
    É, Marco, no meu tempo… XD

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