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A História simiesca e o super-homem nietzscheano

by em fevereiro 19, 2012

Eu deveria estar lendo outras coisas, mas estou aqui escrevendo mais uma vez. Tentei fazer um texto curto e mais uma vez falhei. Enfim, espero que seja útil e que façam a leitura que mais lhes convier. Entretanto, devo advertir que a minha reflexão não deve ser tomada como uma justificativa para a culpabilização do professor pelas mazelas da educação. Estas são resultado de nossa política degenerada, que deve ser superada pelos super-homens que surgirem por aí. Vamos ao texto:

Eis que passo a mão em meu canivete, que estva em cima da mesa. A lâmina dispara com apertar de um botão e eu começo a rasgar as caixas.  Em meio à bagunça da mudança inacabada eu buscava o Abbagnano.  Quem foi aluno do professor Hélio, em Assis, sabe do que eu estou falando. Trata-se do dicionário de filosofia de Nicola Abbagnano; pau pra toda obra! Fui direto ao “S”: “Supererrogatório”, “Superestrutura”…  “Super-Homem”! Não, não se trata do super-herói mais monótono de todas as histórias em quadrinhos. Estamos falando do conceito de Nietzsche.

Nietzsche apresenta a imagem científica do homem como descendente do macaco, mas não da forma segura, irrevogável, da leitura que se faz de Darwin. Para ele, o homem pode e está voltando à condição animal. E isso só é possível porque em sua análise a condição biológica do homem não é a mais importante. Aliás, em Assim falou Zaratustra, ele apresenta condição do homem como uma corda entre o macaco e o super-homem; uma corda-bamba, da qual nós, equilibristas, corremos grande risco de cair e nos despedaçar no chão ao tentar passar. O super-homem de Nietzsche não se parece nada com o super-homem das histórias em quadrinhos: um ser com poderes físicos extraordinários que só servem para preservar as velhas estruturas da sociedade. Aliás, o super-homem niestzscheano é o absoluto oposto disso, é a superação do homem em seus valores tradicionais. É um ser completamente voltado para a vida, que supera os valores judaico-cristãos, totalmente anti-vida, para o bigodão. Mas não basta superar a moral posta e construir uma nova moral, é preciso ser capaz de se superar incessantemente, de recriar seus valores permanentemente. Viviane Mosé o define assim:

“…um home que tem coragem de lidar a cada segundo de sua vida com o conflito que é a escolha de cada situação. Que não atribui isso nem a Deus, nem a moral estabelecida, nem ao professor, nem ao pai, nem ao avô, nem à geração passada. É entender que, independente de sua história, existe um instante supremo: esse. E nesse instante é o seu gesto que determina”

Ademais, o super-homem assume sempre a posição dianteira na vida tal qual os senhores bárbaros, que lutavam a frente de seus soldados. O homem moderno (e pós?) assumiu uma forma de poder covarde, em que aquele que comanda fica escondido, enquanto os subalternos se expõem. Superar essa condição degenerada da humanidade atual é também criar coragem e tomar a frente da situação, se arriscar no calor da batalha, para assim assumir uma posição ética diante o mundo.[1] Entendido isso, vamos ao que interessa.Imagem

Tomo por base a condição da produção da história no país, mas tenho certeza que esta não difere de muitas outras disciplinas e de boa parte do mundo. A maioria dos historiadores produz para as prateleiras. Todo historiador está sujeito a aprovação de seus pares e dela depende para se manter como tal, como nos diz Michel de Certeau. Desse modo, quem quer ser historiador deve produzir algo que seja considerado pertinente por outros historiadores presentes nas instâncias de consagração (vejam aqui uma autêntica salada de conceitos!), programas de pós-graduação, índices de qualidade e produtividade… Acontece que o que é considerado pertinente para os historiadores nem sempre é pertinente para o povo brasileiro. É por isso que surgem e crescem figuras pitorescas como Eduardo Bueno e Leandro Narloch. Alguns historiadores mais preocupados escrevem um ou outro artigo sobre a relação da história com a identidade da população e sobre o papel da escola como entreposto entre a produção na Academia e o povo brasileiro. Se bem que no primeiro caso, tenho visto muito mais historiadores europeus discutindo o assunto, para os quais a conversa faz muito mais sentido. Acontece que a relação dos europeus com sua história é bem diferente da dos brasileiros com a sua, havendo um abismo maior entre as duas partes. Não é à toa que LeGoff vendeu muito livro na França, enquanto no Brasil os historiadores publicam quase exclusivamente através de selos voltados para a academia, com pequeníssimas tiragens.

Mas quando falamos do que os historiadores brasileiros escreveram sobre o ensino de história, temos alguns clássicos que norteiam todos os professores de educação básica mais próximos à Academia. Carla Pinsk é a vedete quando se fala nesse assunto. Entretanto, embora eu reconheça a qualidade da obra de Pinsk, passei metade da minha graduação pensando em como levar tudo aquilo que vi na universidade para os meus alunos e, sinceramente, não consigo levar nem um terço. Cheguei a pensar seriamente que o caminho entre a produção acadêmica de história e os brasileiros só pode se fazer fora da escola. Hoje em dia, vejo a possibilidade de se trilhar esse caminho através de uma escola com outro formato. Em suma, o que quero apresentar aqui é a dimensão do abismo que se deixou formar entre a produção histórica e o aproveitamento da mesma por parte dos brasileiros. Os historiadores produzem para as estantes. Alguns privilegiados tem seu livros amplamente lidos, mas apenas pela elite intelectual que está na Academia. Algum pouco disso chega aos livros didáticos com considerável atraso e, muitas vezes, é ignorado pelos professores que, distantes da torre de marfim, não sabem como lidar com um tema dessa natureza.

Pior do que a existência dessa situação são as raízes que ela criou. A academia segue dessa maneira de forma muito confortável. Desde a primeira metade do século XX, quando a historiografia brasileira começou a manter contato com a estrangeira, ela tem assumido uma posição de qualidade internacionalmente indiscutível, alargando a sua distância entre o povo brasileiro. Todavia, essa condição caminha apenas para o agravamento. A ANPUH define que todo historiador deve ser ao mesmo tempo um professor de história e vice-versa. Entretanto, devido às péssimas condições de trabalho dos professores da educação básica, os historiadores se refugiaram progressivamente na docência superior, ao mesmo tempo que os professores da educação básica se distanciaram da função de historiador. De modo que o senso-comum nos cursos de história é: “Quando se formar você deve escolher entre virar professor ou fazer uma pós-graduação.”. Não preciso dizer que a segunda opção é a mais sonhada entre os graduandos, como foi para esse que vos fala. Seguir os dois caminhos concomitantemente é quase impossível. Embora haja exemplos, posso dizer que fazer uma pós-graduação de alto nível e lecionar na educação básica, especialmente a pública, ao mesmo tempo é um projeto para um super-homem. Mais o dos quadrinhos que o de Nietzsche.

O que pretendo propor com a adequação entre a noção de super-homem e a função de docente não é que todo professor da rede pública faça uma pós na USP-UNESP-UNICAMP, mas que assumir a linha de frente no ensino de história é, em todos os aspectos uma atitude de superação de si e da moral posta pelo meio. Não quero diminuir os colegas que fogem do contato com a sala de aula, uma vez que eu muito provavelmente já teria feito o mesmo se me houvesse surgido uma oportunidade. Mas quero fazer um elogio aos que ali estão, se esforçando para compartilhar de fato o conhecimento com o povão e dizer o quão ético é esse caminho. Temos duas situações de acomodação: a do intelectual que se isola na produção acadêmica do conhecimento (quantos não querem deixar de lecionar até na universidade para se dedicar exclusivamente à escrita da história?) e a do professor da educação básica que deixa de se preocupar com aquilo que acredita ser o conhecimento de autêntica qualidade e passa a reproduzir as estruturas vigentes na escola (fingir que ensina ou praticar o velho decoreba de fatos). Superar qualquer uma dessas situações é terrivelmente difícil, pois vai contra todos os valores vigentes e exige uma incessante renovação de estratégias de luta. O intelectual que produz conhecimento distanciado de seu fim e aquele que está em contato com o “fim”, mas que está distante do conhecimento reproduzem a condição de poder covarde relatada por Nietzsche e aquele que quiser tentar ser um super-homem precisa lutar na linha de frente. A escola é uma delas, mas não a única.


[1] MOSÉ, Viviane. Café Filosófico: Nietzsche. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=wszgKT2zS-c. Acessado em 19/02/2012.

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