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Lágrimas amarradas

by em janeiro 30, 2012

Peço aos colegas escritores do blog licença para introduzir mais um assunto, no qual sequer construí uma reflexão histórica, mas acredito que irão concordar que ele se legitima por sua urgência.

Lágrimas amarradas

Neste domingo tive a oportunidade de viajar com amigos à São José dos Campos a fim de levar doações para a população desabrigada com a reintegração de posse do Bairro Pinheirinho. Não vou abordar o lado mais político do tema, que já foi amplamente discutido na internet e do qual eu sequer tenho conhecimento aprofundado. A minha preocupação é com o bem-estar de seres humanos e, porque não, de seus animais de estimação.

Chegando a São José dos Campos, pedimos informação sobre como chegar ao endereço de uma paróquia onde sabíamos que parte dos moradores tinha sido alojada. Seguindo ao nosso destino passamos em frente ao antigo Bairro Pinheirinho e descemos de carro para ver a situação. O que restou por lá tem uma mensagem bastante clara do que aconteceu. As antigas ruas de terra separam os escombros de casas de madeira ou alvenaria que antes existiam ali – algumas muito bem construídas, por sinal. Em meio aos escombros encontra-se muitos restos de eletrodomésticos e seus carnês de mensalidades já começando a serem pagos. Os restos de jardins e vasos de flores contrastam com o cenário desolador, mas o mais chocante são os brinquedos e as roupas de crianças jogados por toda parte. Documentos que encontramos no chão, cadernos de estudantes, denunciam que os antigos moradores não tiveram tempo de levar tudo o que lhes pertencia. A polícia construiu uma vala ao redor do terreno para evitar o acesso ao mesmo, o que não impede que muita gente revire os escombros para encontrar algo que possa ser vendido na badalada feirinha do rolo que há no bairro ao lado, o Campo dos Alemães.

Saímos de lá bastante abalados em fomos em busca da igreja, onde já ocorria uma missa. Tivemos tempo de ouvir o padre da antiga igreja Madre Teresa de Calcutá, que jaz no Pinheirinho, agradecer aos fiéis pela compreensão em relação ao fechamento da igreja do Campo dos Alemães e justificar que o fora para proteger vidas humanas. Ao término da celebração, o padre nos indicou os alojamentos para onde foram levados os desabrigados, dos quais escolhemos visitar o maior, no qual se encontrava a população que estivera no templo até o começo da semana.

O alojamento se situa a uma distância considerável do antigo bairro e, chegando a ele, conversamos com os funcionários da prefeitura responsáveis pelo alojamento, que nos autorizaram a entregar as doações diretamente a eles. Desconfiados, resolvemos conversar com um alojado, que prontamente nos disse que seria melhor entregar as roupas e comida diretamente a quem precisasse. Foi então que ele começou a nos contar sua história e a nos mostrar o alojamento. Isso estendeu o nosso tempo por lá até o final da tarde, pois o que encontramos são centenas de pessoas inconformadas, que querem uma chance de contar o que lhes aconteceu ao mundo. Muitos nos pediram para que divulgássemos o que disseram na Internet e se permitiram prontamente filmar, não porque haja uma sensação de segurança para tal, mas porque sentem que não têm mais nada a perder. Eu mesmo gravei apenas alguns pequenos vídeos com meu celular, mas meus colegas colheram uma quantidade significativa de material que servirá de substrato para a montagem de um curta-metragem a ser divulgado em breve na própria internet.

Quem achar que no Pinheirinho viviam apenas pessoas paupérrimas está enganado. Muitas das histórias que eu ouvi retratam pessoas que, por não poder pagar os aluguéis draconianos de São José dos Campos, optaram por construir uma casa no Pinheirinho e com o tempo acumularam alguns poucos bens. Senhoras que lavaram roupa e trabalharam como empregadas domésticas por anos para construir suas casas são lugar-comum no alojamento. Com lágrimas nos olhos, todos nos contam sobre como sonharam em conquistar uma vida financeiramente estável trabalhando de sol a sol para construir e mobiliar uma casa no Pinheirinho. Éramos freqüentemente abordados por pessoas que nos tocavam no braço e perguntavam se colocaríamos seus depoimentos na internet – parece que o boato correu rápido enquanto estávamos lá. As falas sempre começavam relatando qual era o trabalho de seu autor, há quanto tempo exerciam a profissão em São José e argumentavam sobre a competência com que cumpriam a sua função. Depois disso, muitos nos contavam sobre como compraram todos aqueles bens de consumo que vemos nas Casas Bahia, que ainda os estavam pagando e que tinham sido roubados antes que eles pudessem voltar para a casa com os caminhões da prefeitura para retirar seus pertences.

A recuperação dos pertences foi outro momento traumático para os desabrigados, que, em sua maioria, encontraram suas casas arrombadas e sem os principais eletrodomésticos. Aparentemente, a polícia esteve no local apenas para tirar as pessoas dali e, no dia seguinte, para apressar a retirada dos objetos de dentro das casas, uma vez que havia hora para que o terreno fosse entregue a seus “donos originais”. Retirou-se o que se pôde, que para alguns foi quase nada. Muitos deles relatam não ter conseguido recuperar seus documentos e, por isso, agora não podem se inscrever nas listas para auxílio aluguel. Esse é o ponto que mais tem indignado os alojados, já que o auxílio aluguel de cerca de R$500 não paga uma casa grande o suficiente para abrigar uma família e que lhes é exigido fiador ou três meses de aluguel adiantado como garantia. Ora, se essas pessoas conhecessem alguém próximo que possua um imóvel para ser fiador, eles não estariam nos abrigos da prefeitura. E nem vou comentar sobre o dinheiro da garantia. Ademais, a cidade não tem imóveis de aluguel suficientes para abrigar todas as famílias.

Mas, o ponto mais chocante para mim foi, sem dúvida os relatos da ação de reintegração de posse. Representantes dos governos estadual e municipal haviam reunido os moradores no sábado a noite para comunicar-lhes que a reintegração não ocorreria mais. Aquelas armas improvisadas para enfrentar a polícia que a mídia havia explorado tanto durante a semana foram guardadas e deram lugar ao planejamento de uma festa para comemorar a nova situação. Eis que no domingo de madrugada os moradores acordaram com um helicóptero sobrevoando a área, do qual passaram a ser lançadas bombas de gás lacrimogênio sobre as casas. Ao tentar fugir, a população descobriu que estava cercada e foi recebida com balas de borracha e golpes de cacetete. Ao longo do dia, todos foram tirados às pressas de suas casas com toda a delicadeza e respeito descritos acima. Pude encontrar algumas crianças com curativos grandes, que deduzi estarem cobrindo machucados resultados desse evento. Aliás, muitas delas ainda não sabem que as suas casas não existem mais e acreditam que só estão esperando a polícia “tirar alguns bandidos do bairro” para poder voltar. Outras descobriram pela televisão, para não falar nas que estão em alojamentos separados dos do seus pais. Também me foi relatado que corpos foram vistos durante a reintegração e que o helicóptero da Polícia Militar teria sido visto pousando para recolher um deles. Não se sabe ao certo quantos, mas entre os alojados há a certeza de que existem pessoas desaparecidas depois da reintegração.
Eu gravei o depoimento de uma senhora de cerca de 70 anos que só vou transcrever aqui, pois acho precipitado mostrar seu rosto antes de ter certeza que há segurança para tal.

“…caiu uma bomba no meus pés e eu caí. Foi o vizinho que me pegou e me levou para dentro da casa dele e derramou uma garrafa de vinagre numa toalha de banho e botou no meu nariz. Aqui, olha [passando as mãos no pescoço], eu fiquei engasgada e foi mais ou menos uns vinte e cinco minutos para eu voltar à respiração, e ficou abanando. O vizinho lá, que morava pertinho mesmo de mim, na outra rua. Só Deus sabe o que eu passei.”

Àqueles que apóiam ações como a reintegração de Pinheirinho, eu faço um apelo. Não é, repito, uma questão de posição política, de opinião sobre a função social do imóvel ou sobre a propriedade privada. Quero que se conscientizem de que se trata de um respeito mínimo a dignidade humana, para não falar da dos animais que, os que não foram assassinados na ocupação estão doentes e agressivos pela inalação de gás e pelo barulho das bombas. Que se trata de acreditar que não se atira, com armas letais ou não, em idosos, crianças, mulheres ou homens que estão dormindo em suas casas ou andando pela rua normalmente. Não se destrói lares dessa forma, sem pelo menos dar chance de que seus habitantes saiam de suas casas levando suas coisas. Quem tiver uma religião, que reze por essas pessoas, que estão sem casa, espremidos em abrigos onde a distribuição de comida e o número de banheiros estão muito aquém do considerado mínimo. O título desse texto vem de uma expressão que escutei muito no alojamento, ontem: “já amarrei lágrimas”, quando queriam me dizer que já haviam chorado tanto que passara a vontade de chorar, mas não o desgosto. Isso vale para eles, é claro, pois eu ainda não amarrei lágrimas.

Esse é um artigo da Anistia Internacional a respeito do que se passa: http://br.amnesty.org/?q=node/1564

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