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Os do lado de cá e os do lado de lá

by em janeiro 27, 2012

Olá pessoal, depois de uma discussão que não rolou vou mandar mais um post. Espero que gostem e que essa coisa agora pegue no tranco. Preciso ressaltar que ainda tenho informações pouco precisas sobre Atibaia, então não pude apontar quais prédios aqui foram tombados ou quanto se gastou em cada obra. Entretanto, a impressão geral sobre a situação da cidade é bastante evidente e salta aos olhes de qualquer um que queira ver, de modo que eu acredito que meu pouco tempo na cidade não tenha comprometido a construção do texto. O texto de François Hartog que eu cito e do qual retirei os excertos pode ser lido aqui: http://www.scielo.br/pdf/vh/v22n36/v22n36a02.pdf.

Lembro também que o texto segue algumas condições apresentadas no post anterior, não me dediquei a um aprofundamento maior ou mesmo a uma revisão ortográfica em prol da rapidez na publicação. Isso é tudo.

Bom apetite!

Logo que cheguei em Atibaia, o que eu podia ver me chamava a atenção. O centro antigo da cidade, para onde aquele que chega à rodoviária é sub-repticiamente conduzido é uma profusão de prádios da primeira metade do século XX, adaptados para receber boutiques e lan houses. As ruas ignoram o moderno asfalto em lugar do calçamento com paralelepípedos de granito enquanto as obras continuam para preparar o enterramento da fiação dos postes. Essas poucas ruas e trechos de ruas que nos remontam a um passado solene da cidade são alvo de uma notável política de preservação do patrimônio histórico por parte do poder municipal. Não obstante, promovem ao visitante um deleite completo para os olhos, o encontro do patrimônio histórico com o paisagístico. Dessa região da cidade se tem uma bela vista dos morros que a circundam, inclusive do ponto mais alto do município, a Pedra Grande. Não é à toa que na rua 13 de Maio, uma sinuosa e estreita rua de paralelepípedos, as casas antigas se acotovelam com alguns dos melhores hotéis da cidade, que aproveitaram o aclive do terreno para empilhar apartamentos com vista panorâmica para a parte nobre da cidade e para a paisagem natural.

Mas, toda cidade bonita necessita ter uma parte feia para sustentá-la nesse nosso país, Atibaia tem outra metade que se acessa ao atravessar a Rodovia Fernão Dias. Essa parte possui ruas que também ignoram o asfalto, mas que, por outro lado, também não conhecem os paralelepípedos. Para ajudar, algum entulho de construção. Partes dessa região, e mesmo da outra metade da cidade, tem sofrido, nos últimos anos, com enchentes do rio homônimo à ela. No início de 2011, muitas famílias foram desalojadas porque a água quase cobriu por completo as suas casas. Para constar uma curiosidade, corre um boato na cidade de que a principal responsável pelas enchentes é uma represa construída à jusante da cidade a fim de que uma concessionária particular a usasse para gerar energia. Essa represa teria sido mal planejada, fazendo o nível do rio subir. Com as chuvas de verão, o quadro se agrava e a população tem de fugir de suas casas de barco. Para quem propuser a andar pelas áreas ribeirinhas da cidade, coisa a que muitos atibaienses não se prestam, será possível notar que há algo fora do lugar. Eu mesmo vi taboas crescendo no quintal de uma casa e um campinho de futebol forrado com vegetação de brejo.

Voltando ao propósito do texto, a atual administração da cidade tem dedicado muitos recursos para a reforma de praças e ruas no centro da cidade, em obras que compõe estruturas atuais com as antigas, numa leve combinação de caráter puramente estético. Em relação ao problema das enchentes, não sei dizer quantos recursos foram a ele destinados, mas são insuficientes. O tombamento de muitos prédios no centro da cidade tem, paralelamente, agravado os efeitos da especulação imobiliária na região, uma vez que muitos deles acabam sub-utilizados ou então abandonados, justamente na área onde está concentrada boa parte da atividade econômica. A contradição está na boca do povo e é gritante aos olhos de qualquer historiador que assuma os efeitos de seu trabalho no tempo presente. É justo destinar recursos à preservação do patrimônio histórico da cidade enquanto boa parte da população carece de ajuda para não se afogar? Por outro lado, a preservação do patrimônio não está ligada ao fortalecimento da cultura e da identidade da população e não tem, por isso, um papel social importante? Não é para isso que ensinamos história nas escolas?

François Hartog já desenvolveu reflexão parecida e nos dá uma indicação do ponto de partida com a ajuda do conceito de “lugares de memória” de Pierre Nora.  Para este último, os lugares de memória são esforços de nossa sociedade para preservar o passado, uma vez que nos não fazemos mais isso de maneira natural. Na maior parte das sociedades rurais ou nativas do novo mundo, o passado era sempre apresentado aos mais jovens através da fala dos mais velhos, através da encenação em rituais e nas práticas cotidianas. Por isso, para Nora, qualquer esforço de preservação do passado é artificial, uma vez que ele só pode existir porque o nosso presente engole o passado. De fato, vemos como, à medida que nós nos urbanizamos, cresce nossa preocupação com a preservação do passado.

O centro de Atibaia, o Museu Municipal, são esforços de membros de sua população em preservar seu passado, conservando seus prédios, objetos e histórias. O patrimônio imaterial também tem lugar nas políticas preservacionistas da cidade, que busca preservar e promover as práticas religiosas tradicionais. Para Hartog, são testemunhas de uma outra temporalidade, uma temporalidade que preservava seu passado, mas que agora tentamos fazer viver em nossa temporalidade extremamente voltada para o presente. Trata-se da mudança de nossa relação com o tempo, se hoje somos completamente voltados para o presente, tudo deve ser imediato, deixamos o passado e o futuro invadi-lo. O patrimônio e a história avançam cada vez mais sobre o presente, à medida que nos preparamos para o futuro próximo. As fotos da viagem que fizemos ontem, queremos guardar para ver com nossos netos e os prédios ainda em uso são tombados por seu valor histórico, antes que a ameaça de sua integridade se torne realidade.

Essa é a tese de Hartog, amparado por uma série de outros historiadores de renome. Os esforços de preservação nascem da instabilidade e do sentimento de que algo está se esvaindo. Mas porque não tipificar esses esforços? O que está sendo preservado e a fim de sanar a instabilidade de que?

Respondendo à primeira pergunta, voltamos à preservação do centro da cidade e de práticas culturais da população que vive na cidade desde sua fundação, com destaque às práticas religiosas. A parte preservada também é buscada por uma quantidade significativa de turistas de alto poder aquisitivo, e isso é algo que não pode ser ignorado. Há ainda um prédio de reconhecido valor histórico na cidade que, embora acredito que seja tombado, não é alvo de políticas de embelezamento de seus arredores e de valorização. Trata-se de uma antiga estação de trem a qual foi dado outro uso, tendo sido instalados alambrados em seu redor. Nem a estação nem as ruas, nem a praça em frente à ela foram reformadas e diria que sequer a praça é varrida. Devo acrescentar que a estação, por acaso, fica “do lado de lá da Fernão Dias”.

Voltemos a Hartog para pensar essa situação e tentar responder à seguinte perunta: “Nesta nova configuração, o patrimônio se encontra ligado ao território e à memória, que operam um e outro como vetores da identidade”. Os três conceitos apresentados por Hartog, território, memória e identidade já foram discutidos acima. O que sugiro, baseado na frase acima, é que o que acontece em Atibaia é a preservação de uma memória e um território que estão ligados a uma identidade. A identidade dos “do lado de cá da Fernão”, frente aos “do lado de lá da Fernão”. Isso nos permite compreender como pode ser possível que o poder público destine vigorosamente recursos a preservação do patrimônio histórico enquanto outras áreas da cidade carecem da infra-estrutura mais básica.

E quanto ao papel social da preservação da memória comentado no início do texto? Nesse caso ela age em todos os sentidos propostos, ela promove a cultura e reforça a identidade da população, mas ela não é capaz de atingir toda a população da cidade. Seu uso não é o da inclusão mas o da exclusão. E Hartog continua: “Mas, trata-se menos de uma identidade evidente e segura dela mesma do que de uma identidade que se confessa inquieta, arriscando-se de se apagar ou já amplamente esquecida, obliterada, reprimida: de uma identidade em busca dela mesma, a exumar, a “bricoler”, e mesmo a inventar”. Em relação a esse ponto, só arrisco uma observação. E porque a insegurança desses que constroem um passado a fim de se afirmar? Será a ameaça de uma população que agora tem crediário e pode ostentar quase todos os símbolos do sucesso financeiro? A resposta fica para próxima, porque essa é uma outra história.

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