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História, memória e colchões na FFLCH

by em outubro 30, 2011

Em primeiro lugar, quero saudar todos a todos que acessarem o blog, leitores e colegas leitores-escritores. Eu já possuía um tema na agulha para compor um texto a ser postado aqui, entretanto, com os últimos acontecimentos na USP, fica impossível não abordá-lo diante de nossa proposta.

A idéia é desviar um pouco o tema da ocupação em si para os usos que se faz da história no país. É preciso ressaltar que essa, em todos os aspectos, apenas uma discussão preliminar; construo a reflexão simultaneamente ao texto e as referências históricas não estão embasadas em pesquisas aprofundadas e nem fazem parte da minha “especialidade” dentro da historiografia. Aliás, acredito que o Felipe poderá complementar em muito com o seu conhecimento a respeito dos movimentos sociais durante o período militar.

Coloco, já de partida, uma proposta: Que todos os textos complementados possam servir de subsídio e sugestão para os próximos, a fim de que se componha um verdadeiro debate entre os redatores.

Quero também pedir desculpas por não ter trabalhado muito o texto antes de postar, mas senti a necessidade de postar logo para o blog não ficasse só no Mundo das Idéias de Platão. Além disso, estou com uma dor de cabeça daquelas! Mas vamos ao que importa….

Recentemente, vimos os casos de violência dentro da Cidade Univesitária, principal campus da USP , crescerem na mídia. Em tese, eles tem aumentado em número também, mas o fato é que este na começaram a pulular vídeos de assaltos no campus no YouTube e na televisão. Em maio, um desses assaltos terminou na morte de Felipe Ramos de Paiva. A morte do estudante teve grande repercussão na mídia e serviu de justificativa para que a reitoria da USP assinasse, há cerca de 50 dias, um convênio com a Polícia Militar para que ela fizesse a segurança do campus. Na última quinta feira, os policiais prenderam dois estudantes que fumavam maconha dentro de um carro, no campus. Centenas de discentes se reuniram, então, para tentar impedir a prisão, terminando em confronte com a tropa de choque. Em protesto, ocuparam o prédio da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas e reivindicam a fim do acordo com a PM. (Veja as notícias no jornal idôneo e imparcial Folha, de onde tirei algumas das informações acima).

Para quem não sabe, no Brasil a polícia não pode entrar nos campus universitários, a não ser por pedido do responsável, um diretor do campus ou reitor. O raciocínio é o seguinte, embora as universidades públicas façam parte do Estado, elas são organismos autônomos, não são submetidas ao governo. Elas são autogeridas e esse é, sem dúvida, um dos motivos pelos quais elas não estão mal tão mal das pernas quanto o resto da educação pública. Por lei, a polícia só pode adentrar a um espaço que não seja público através de um mandado, ou usando uma brecha na lei que diz respeito a seu “poder de polícia”. Dessa forma, se a polícia não pode entrar na sua casa, ela também não pode entrar nos campus universitários, que não são a casa da mãe Joana.

Entretanto, a questão não é tão simples assim. É aqui que começamos a roçar a questão histórica. A luta contra a entrada de policiais nos campus universitários remonta à Ditadura Militar e, com a Redemocratização, a polícia deixou de ter essa liberdade. Os campus universitários foram espaços notórios de resistência à Ditadura, intelectual e mesmo física, como no clássico caso de enfrentamento entre alunos de cursos de Humanas da USP contra os do Mackenzie. Com o endurecimento do regime, no final da década de 1960, a repressão aumentou e, o que ficou na memória das universidades é muito bem ilustrado pela clássica fotografia da cavalaria da polícia militar dentro do saguão do Prédio 1 da UNESP de Assis, que o nosso amigo Felipe vai postar em breve.

Historicamente, meus caros amigos, os espaços onde há a invenção, a criação de idéias são lugares livres. Mesmo nos regimes totalitários, usando o conceito de Hannah Arendt, aqueles que estavam nesses lugares de criação caros aos regimes gozavam, se não de liberdade, pelo menos de alguma tolerância. A existência desses lugares privilegiados é não só necessária, como é instituída em nossa sociedade. Ora, os grandes astros da música, atores da televisão, e mesmo pintores ou artistas que não pertencem à cultura de massas são as pessoas mais promíscuas e drogadas que conhecemos. Além do fato de possuírem dinheiro e fãs o suficiente para dar vazão à sua libido, eles são tolerados. Exceto algum sensacionalismo feito pela mídia, todos aceitam e, mesmo esperam, que esses “gênios” pratiquem isso seria considerado um desvio moral grave em nós mortais.

Na minha concepção de sociedade perfeita, esses privilégios não existiriam justamente porque a todos seria permitida a criatividade e o cuidado de suas vidas e seus corpos da forma que bem entendessem. Na sociedade em que vivemos, esse espaço de tolerância existe dentro das universidades. A luta pela autonomia e liberdade dentro nos campus universitários era transpassada pela noção de que, se a sociedade toda não pode ser livre, que o espaço da elite intelectual ou seja. Ou, para algumas correntes da esquerda, de que aquele era o espaço da vanguarda política e intelectual e que, por isso mesmo, deveria ser privilegiado em relação ao resto da população.

Esse espaço privilegiado existia à revelia dos mais conservadores. E vez ou outra, desde a Redemocratização, era assediado por um reitor ou diretor de campus que chamava a polícia para ganhar um discussão com alunos. Não posso construir um panorama seguro desse tipo de intervenção, mas posso dizer, sem muito medo de errar, que elas aumentaram em São Paulo por volta de 2006. No primeiro dia de 2007, por ironia de Clio, o ex-presidente da UNE assumo e governo do estado e dá início a um processo de tentativa de destruição desse espaço, baixando decretos antes que o Judiciário estivesse constituído. Com certeza teremos a oportunidade de discutir detalhadamente o processo político de 2007 nesse blog. Por isso, voltemos ao que nos importa.

Os grandes veículos de mídia tem apoiado, sem medo de exagerar, esse constante assédio ao espaço privilegiado da universidade. Mas isso não nos surpreende, já que eles normalmente se aliam ao partido de nosso ex-governador, ex-presidente da UNE, ex-candidato à presidência… ex-tudo! (Desculpem, não resisti à observação). Um dos arcabouços que a mídia usa para denegrir a imagem de estudantes que lutem por esse privilégio é mostrar o depoimento de outros estudantes que são contra tais privilégios. Diga-se de passagem, é bem marcada a divisão de posicionamento em relação aos alunos segundo seus cursos. O que esses jornalistas esquecem de comentar é que, esses estudantes que são contra o espaço privilegiado na universidade tem seus próprios espaços privilegiados.

Em outras palavras, fumar maconha no campus não pode, mas chapar com álcool, maconha e drogas mais pesadas nas festas universitárias pode!

E é justamente nessa divisão que eu quero situar minha discussão. Na minha opinião, a divisão entre forças políticas no Brasil segundo direita e esquerda é problemática. Na Europa depois da Segunda Guerra, e no Brasil, depois da Ditadura Militar, se assumir “de direita” ficou bastante complicado. No caso brasileiro, no processo de redemocratização, na transição entre as décadas de 1980-90, os políticos que exerceram sua função durante o regime militar, e em consonância com ele, continuaram no poder, mas não poderiam assumir sua posição. Na memória nacional os militares ficaram mal vistos, a direito ficou mal vista, por isso todo mundo quer ser a esquerda. Veja quantos partidos tem “social” ou “socialista” em seus nomes. E para reforçar a ironia de Clio – ela é bem mordaz – a maioria deles representa a ala conservadora. Por outro lado, uma parte significativa da nossa esquerda, me refiro ao PT, teve de pasteurizar seu discurso para poder entrar e se manter no poder. Aliás, a “direita” também passa pelo mesmo processo, vide a proposta do novo PSD. A política brasileira é, no discurso, cada vez mais centro, mas as práticas e os personagens continuam quase os mesmos.

Entretanto, para facilitar a discussão, vou usar livremente os termos “direita” e “esquerda” para me referir aos grupos políticos. Então eu parto para a questão central: Por que a esquerda usa a história/memória muito mais do que a direita, no Brasil? Ora, os conservadores têm ignorado sumariamente a memória na discussão da USP. Não há problema em haver a polícia na USP, pois ela está lá para proteger o “cidadão de bem”. A memória passa ao largo desse raciocínio – impossível não vir à mente a propaganda política de Paulo Maluf que circula na TV.

Do outro lado, a esquerda romantiza a questão. Não posso me estender, nesse momento, em argumentos. Mas quem esteve na universidade sabe que os paradigmas do Socialismo Científico e suas vertentes são livremente aplicados, a memória é livremente evocada e, para meu desgosto, muitas vezes o amálgama é uma leitura absolutamente superficial de Michel Foucault. O caso da polícia na USP é patente, pois é comum ver quem defenda a saída da polícia sem pensar numa alternativa para compor a segurança no campus.

Um embate similar ocorreu dois anos antes, na UNESP de Assis, quanto ao policiamento das imediações do campus a fim de coibir os casos de estupro que ocorriam com assustadora freqüência. Em debate entre alunos do campus, logo a proposta foi alterada para o policiamento apenas das imediações da instituição, sem a entrada da polícia no espaço da mesma. Mas os protestos em relação à presença da polícia e a restrição das liberdades se mantiveram, com embasamento em especial dos paradigmas citados no parágrafo anterior. Não pretendo desmoralizar quem o defendia, mas os estupros aconteciam. Nesse caso e no caso da USP, há quem ignore esse tipo de violência em nome de situá-lo na luta de classes.

Fico por aqui porque já me estendi de mais e estou longe de qualquer resposta. Quero deixar claro que, busco respostas apenas para a discussão referente à história – não seria esse o termo mais correto, mas vou usá-lo livremente. Não pretendo, de forma alguma, responder à questão da USP, embora eu me considero no direito de dar sugestões, acredito que a solução tem de partir da própria comunidade uspiana. A discussão que iniciei aqui deve continuar, da minha parte e de meus colegas. Aos que ocupam a USP, desejo bom senso e justiça – entenda-se a não-criminalização de seus atos.

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